sábado, 8 de outubro de 2011

Artigo: A crise faz a hora

 

O noticiário tende a nos fazer ver a economia como se fosse – e, em parte, até o é – um mero cassino especulativo.
Sexta-feira passada, anunciava-se a alta recorde de 18% no dólar. Ontem, o Estadão diz que “Dólar cai pelo 3º dia e já acumula perda de 4,95% no mês”
Se, infelizmente, pode-se fazer jornalismo econômico assim – embora com grande prejuízo da missão de informar e ajudar a entender – certamente não se pode fazer política econômica da mesma forma.
Claro que há momentos de surtos especulativos em que as autoridades econômicas e o Banco Central, especialmente, têm de entrar “rachando”.
Mas a política monetária e cambial não pode ser feita nem com espasmos, nem com teimosia, o que não se confunde com persistência.
Salvo uma quebradeira na Europa ou algum dado extremamente fora da curva em algum indicador de atividade econômica, há relativa convicção de que o dólar – com sobes e desces replicando situações diárias externas – vai se estabilizar em algo ligeiramente abaixo de R$ 1,80. E vai porque é essa a cotação que se julga capaz de recolocar a moeda brasileira num patamar de conversão razoavelmente adequado.
Ou seja, o patamar que tinha no início do ano (R$ 1,70) acrescido da inflação no período. Porque foi a partir dali que se acentuou o movimento especulativo que fez nossa moeda sobrevalorizar-se mais fortemente.
A tabela que ilustra o post permite a qualquer pessoa lúcida ver que a escalada de sobrevalorização do real atingia um patamar suicida para nossa economia, de câmbio livre. E o câmbio, longe de ser um valor “neutro”, apolítico, é a grande arma hoje nas disputas comerciais do mundo, como revela a disputa que EUA e China travam pelo fim da exagerada depreciação do yuan, promovida pelo governo chinês.
Agora, pense com seus próprios critérios, era sustentável uma posição de câmbio como a que tínhamos há dois meses?
O mercado sabe que não há – com as ressalvas que se alinhou antes – espaço para uma explosão do dólar.
A segunda questão é a “inflação do dólar”. Claro que ela existe, não é uma ficção de analistas ranzinzas. Mas para que ela aconteça é preciso um mercado mundial aquecido, onde a demanda (e o preço, consequentemente) dos produtos agrícolas e minerais de nossas exportações – as tão faladas commodities – esteja subindo, em dólares.
Quando os preços destas mercadorias sobe em dólar, tende a subir em reais, a menos que o real se valorize e um dólar prepresente um valor menor em real.
E era isso que estava acontecendo ao longo deste ano e mudou com o agravamento da crise mundial. O preço das commodities, num mundo onde a atividade econômica se reduz, tende a baixar e, assim, compensar no médio prazo, o ajuste cambial brasileiro.
Neste gráfico que registra sua variação, o Equity Commodity 100 da Dow Jones, você observa que é nítido e forte – embora não se possa adivinhar onde chegará – o movimento de baixa destes preços em dólar.
 

O terceiro fator que entra nas contas dos gestores da política econômica – é verdade que com visão diferente, segundo sua orientação – é o nível de atividade econômica do país.
E, embora com menos aceleração que no ano passado, essa atividade continua forte, pelos seus indicadores de emprego, renda, consumo e – mais fracamente neste ponto – produção.
É com estas três variáveis, olhadas por suas tendências, e não com o sobe-e-desce de cada dia, que se definem as condições para  a queda dos juros.
Não é, como fazem crer certos “analistas” um populismo monetário, muito menos uma demagogia inflacionária.
É o “fazer a hora” de uma economia com juros civilizados, que, para essa gente, um dia há de chegar. E que, com eles, nunca chegou.
Por: Fernando Brito