
Por Anna Flávia Rochas
SÃO PAULO, 8 Fev (Reuters) - O Operador Nacional do
Sistema Elétrico (ONS) revisou a expectativa de aumento de carga de
energia no Brasil em fevereiro para uma alta de 15 por cento e o custo
de operação do sistema elétrico superou o primeiro patamar de déficit de
carga nas regiões Sudeste/Centro Oeste e Sul, numa sinalização de que
há necessidade de redução de carga de energia de cerca de 5 por cento.
O aumento de 15 por cento de carga esperada para o Brasil em
fevereiro foi divulgado pelo ONS no final da sexta-feira e é mais do que
o dobro da estimativa da semana passada, de que a carga subiria 7,1 por
cento neste mês na comparação com fevereiro de 2013.
Já o custo marginal de operação médio para a região Sudeste-Centro
Oeste e Sul superou o primeiro patamar que indica custo déficit de
energia, de 1.364,42 reais por megawatt-hora (MWh), e necessidade de
reduzir até 5 por cento da carga.
Para esta semana, esse custo de operação do sistema está em 1.691,39
reais por megawatt-hora para as regiões Sudeste/Centro Oeste e Sul.
"Na semana de 8 a 14 de fevereiro, a previsão é de que ocorra chuva
fraca em pontos isolados das bacias dos rios Uruguai e Jacuí. Nas demais
bacias hidrográficas de interesse do SIN (Sistema Interligado Nacional)
predomina a estiagem", informou o ONS no Sumário Executivo do Programa
Mensal de Operação para esta semana.
O ONS acrescentou que o Sudeste/Centro-Oeste teve o segundo pior
janeiro em regime de chuvas para geração de energia pelas hidrelétricas
desde 1931 e que, pela previsão revista, no mês de fevereiro esta
posição está mantida.
Além disso, o ONS prevê que o Nordeste apresente a menor média mensal
de afluência de chuvas para os reservatórios de todos os meses de
fevereiro do histórico.
"A revisão das previsões para o mês de fevereiro indicam queda
significativa das afluências aos subsistemas Sudeste, Sul e Nordeste",
informou o ONS.
As afluências previstas para o Sistema Interligado Nacional (SIN)
reduziram cerca de 7.000 MW médios, assim como a energia armazenada
esperada, que sofreu redução adicional de 4.500 MW médios, conforme
informações da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
As previsões para o mês de fevereiro agravam as preocupações em
relação ao abastecimento do país já que os reservatórios, principalmente
no Sudeste, estão em níveis baixos críticos e continuam a cair.
Os reservatórios de hidrelétricas do Sudeste/Centro-Oeste, os
principais para o abastecimento do país, estão em queda desde janeiro,
época em que deveriam estar enchendo para sustentar o fornecimento de
energia durante o período seco.
Esses reservatórios já tiveram uma queda de 4,66 pontos percentuais
desde o fim de dezembro e estão hoje em 38,52 por cento de
armazenamento.
Esse armazenamento ainda é maior que o fechado ao fim de janeiro do
ano passado, de 37,46 por cento, mas o ONS prevê que esses reservatórios
do Sudeste/Centro-Oeste terminem fevereiro em condições ainda piores, a
35,6 por cento. No final de fevereiro de 2013, os reservatórios dessa
região estavam a 45,48 por cento.
Já no Sul, o nível dos reservatórios está em 51,5 por cento, e se a
previsão do ONS para o fim de fevereiro se cumprir, estará em 36,8 por
cento ao final do mês.
Todas as térmicas do país disponíveis para a operação estão
acionadas, conforme indica o custo marginal de operação, que já está
superior ao custo de geração da térmica mais cara do país, indicando a
necessidade de racionar carga no Sudeste/Centro-Oeste e Sul.
"Todavia, as regiões SE/CO, NE e N encontram-se em pleno período
úmido, o que conduz à expectativa de reversão do atual cenário
hidrológico. Assim sendo, a operação do SIN será realizada considerando o
pleno atendimento aos requisitos de carga", disse o ONS no Sumário do
PMO, documento disponível em seu site.
A necessidade de redução de carga apontada ocorre após o sistema
elétrico nacional como um todo e outras regiões separadamente virem
batendo consecutivos picos de demanda de carga de energia.
Na terça-feira, curto-circuitos em linhas de transmissão que trazem
energia do Norte para Sudeste do país ainda resultaram em apagão que
atingiu diversos estados e cerca de 6 milhões de consumidores.
PREÇO DE ENERGIA
O baixo nível dos reservatórios e forte consumo também provocam o
aumento do preço de energia de curto prazo (Preço de Liquidação de
Diferenças - PLD), que se mantém no topo permitido para o ano, em 822,83
reais por MWh, para esta semana, nas regiões Sudeste/Centro-Oeste e
Sul.
Especialistas do setor elétrico consideram que o PLD deve se manter
no patamar máximo no Sudeste/Centro-Oeste ainda por algumas semanas,
diante da ausência de chuva nas previsões.
"Fevereiro vai ser muito ruim, sem chuvas nas três primeiras
semanas... Vemos PLD máximo nas três primeiras semanas de fevereiro e
pode ser que na quarta semana a gente continue com PLD máximo também",
disse Érico Evaristo, presidente da Bolt Comercializadora, ao explicar
que mesmo com alguma chuva, pode ser que não haja recuperação suficiente
dos reservatórios para a queda de preço.
"Mesmo chovendo nas próximas semanas, qualquer que seja a previsão,
os reservatórios estão muito baixos. Precisamos que subam um pouco. Não
vejo possibilidade de os preços mexerem muito", disse Walfrido Ávila,
presidente da comercializadora Trade Energy.
Os altos custos de energia de curto prazo prejudicam principalmente
as distribuidoras de energia, que estão descontratadas em cerca de 3,5
mil MW e têm que arcar com gastos relacionados à exposição no curto
prazo em momento de forte geração térmica.
Aos atuais níveis de preço, a expectativa é de que essas empresas
tenham um dispêndio de cerca de 1,5 bilhão de reais por mês, o que pode
significar 18 bilhões de reais no ano, afetando o caixa das companhias
já que o governo federal ainda não definiu o repasse de recursos do
Tesouro para ajudar essas companhias via Conta de Desenvolvimento
Energético (CDE).